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A Empreendedora

Público·2 membros

A Solidão e a Força do Empreendedorismo Feminino Solo


Uma colega comentou recentemente que completar um ano na jornada do empreendedorismo tem sido, confessadamente, uma experiência muito solitária. Essa confissão ecoa a realidade de muitas mulheres. O empreendedorismo feminino costuma ser retratado nas capas de revistas como uma trajetória de glamour, conquistas rápidas e realização plena. No entanto, os bastidores revelam um cenário profundamente solitário, desafiador e marcado por barreiras invisíveis que vão muito além da burocracia ou da falta de capital. Para a esmagadora maioria das mulheres que decidem abrir o próprio negócio, a caminhada é feita sozinhas.

Os pilares dessa dificuldade sustentam-se na própria solidão da gestão. Empreender solo significa assumir, simultaneamente, o papel de diretora executiva, setor financeiro, atendimento ao cliente, equipe de marketing e operadora do próprio negócio, sem alguém com quem dividir o peso de uma decisão difícil, de uma crise financeira ou do esgotamento físico e mental. A falta de apoio e de uma rede estruturada agrava esse panorama, pois o ecossistema de negócios ainda é moldado, majoritariamente, por e para homens. Muitas mulheres enfrentam barreiras ao tentar acessar redes de networking tradicionais, conseguir mentoria ou obter crédito bancário, esbarrando em taxas de juros mais altas e maiores exigências de garantia, mesmo apresentando taxas de inadimplência menores.

A esse cenário soma-se o estigma da ambição. Enquanto a determinação masculina é socialmente aplaudida como sinal de liderança e visão de futuro, a ambição feminina frequentemente esbarra em julgamentos morais que rotulam mulheres obstinadas como frias ou egoístas. O desestímulo constante manifesta-se em frases como os alertas sobre riscos excessivos ou a crença de que o mercado não é lugar para elas, ditas por familiares, amigos e até parceiros íntimos. O ambiente ao redor, em vez de funcionar como um porto seguro, muitas vezes mina a autoconfiança da empreendedora. Além disso, existe a culpabilização pelo risco: quando um negócio liderado por um homem falha, o revés é atribuído às contingências do mercado, mas, quando uma empresa feminina enfrenta dificuldades, a culpa é direcionada à suposta falta de foco ou instabilidade emocional da fundadora.

Dizer que é quase impossível manter um negócio sob essas condições reflete um cenário onde a mulher acumula o peso da dupla ou tripla jornada, englobando o trabalho doméstico, o cuidado com a família e a gestão da empresa, sem uma rede de apoio estruturada pelo Estado ou pela sociedade. Apesar de tudo isso, as mulheres empreendem. Elas veem no negócio próprio uma rota de fuga para a dependência financeira, para a falta de flexibilidade no mercado tradicional e para a urgência de expressar seu potencial criativo e profissional. O empreendedorismo solo feminino não sobrevive por facilidade, mas apesar da falta de incentivo, impulsionado por uma resiliência feroz, pela coragem de desbravar o desconhecido e pela necessidade urgente de autonomia.

Minha própria trajetória começou em 2020, aos dezoito anos, quando atuei formalmente como intérprete de Libras autônoma para prestar serviços a uma universidade pública e abri meu CNPJ. No início, eu não sabia exatamente o que estava fazendo. Investi no negócio com meu próprio capital, errando muito, sentindo-me insegura e sem saber como calcular um orçamento, emitir uma nota fiscal, lidar com burocracias, papéis timbrados, minutas e protocolos. A falta de compreensão da família e dos amigos, que sugeriam caminhos mais tradicionais como a faculdade, um emprego de carteira assinada ou um concurso público, era uma tentativa de apoio que gerava dúvidas, sentimentos que me acompanham até hoje, enquanto sigo firme na construção da minha produtora de cinema e efeitos visuais.

E você, como se sente em relação a ser empreendedora?

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